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O pertencimento universal e o cultivo da alma

Para o amigo Rafael Chaaban, que a luz do barqueiro Caronte conduza seus passos na eternidade.

Segundo o relatório São Paulo Megacity Mental Health Surve [1]a região metropolitana de São Paulo registrou a maior incidência de transtornos mentais do mundo.

  Ante a emergência do “tempo-presente”, a partir do impulso do “ethos” capitalista mediando as relações e a subjetividade do homem moderno, já era de imaginar que os transtornos de ansiedade e o abuso de substâncias químicas estivessem registrados no topo deste nefasto ranking. 

A reprodução de um cotidiano sem perspectivas e os comportamentos voltados exclusivamente ao trabalho tem como maior efeito colateral a perda das funções humanas, nos desligando dos propósitos humanos, expandindo o medo, a raiva e o desespero e estabelecendo  estes como valores imutáveis dentro do sistema, além de operar em diversos níveis para o mal-estar das grandes cidades.

Não é de se esperar que a partir deste contexto todos os investimentos do indivíduo (doente) estejam dirigidos para a produtividade e cognição, referências dominantes de uma vida unilateral. A busca pela beleza, significado e experiência foi trocada e incentivada pela busca de coisas e o império do ego nos leva para uma queda-livre de expansão do poder e brutalidade.

  As funções humanas que nos referimos acima estão relacionadas com toda aquela sabedoria que deu sustentação a vida e a tradição de povos milenares, e que se relacionou com os profundos mistérios da existência, da convivência e da travessia.  Entretanto, o “eterno-presente” da vida moderna dissociou as atividades humanas de qualquer impulso a uma experiência autêntica de interioridade.  A explosão dos perfis das redes sociais e a impossibilidade do silêncio e da introspecção teriam algo a nos dizer?

Reiteramos a necessidade da vida humana de forma interdependente.  A vida deve ser considerada a partir de uma grande rede de vínculos com todas as formas e manifestações da Natureza e o cuidado deve ser a tônica das relações, seguindo o imperativo cavalheiresco e medieval onde o “maior cuida do menor”.   Tal projeto despadroniza o funcionamento psíquico dos modelos patológicos ampliando a consciência e estabelecendo o convite do retorno ao imaginário, ao lúdico e poético, ao rico manancial dos arquétipos que trazem em si a potencialidade de criar algo novo.

Lembremos que no conjunto das narrativas míticas o herói  é aquela figura arquetípica que faz aflorar no espírito humano a busca pela exemplaridade universal .  Superando as fronteiras das limitações pessoais e coletivas, o herói revigora em si e na coletividade um vigor destemido de força e superação, resgatando os sentidos da dignidade humana mesmo quando os mais absurdos cenários parecem sem solução. 

[1]              Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462009000400016

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