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UMEBOSHI: A ARTE DE CURAR – Sonia Hirsch

 

UmeboshiA arte de curar é tão antiga
quanto a vida, e alguns remédios
ancestrais podem ser o máximo
quando você procura soluções novas
para probleminhas corriqueiros.
Sem esquecer que dos corriqueiros
é que nascem os graves.

Por exemplo, umeboshi:
uma ameixa ácida e salgada que
os japoneses usam quase todos
os dias, para prevenir ou curar.
Dor de cabeça, indisposição,
gases, enjoo, indigestão, ressaca,
cansaço, gripe? Ameixa pra dentro,
deixando dissolver devagar na boca
ou desmanchando em água quente
ou banchá: sabor instigante,
efeito muito rápido.

Ume é o nome da ameixinha, que parece uma azeitona
gorda, verde, tão ácida que não dá para comer ao natural.
Boshi quer dizer que ela virou conserva, depois de passar
um ano e três meses amadurecendo com sal e folhas
de shissô.

Mas tanto tempo assim?, você se espanta. Pois é, tempo
indispensável para o sal e o ácido alcançarem equilíbrio
perfeito: nada mais é salgado nem ácido, e o resultado é
não só saboroso como antisséptico, bactericida, antiviral,
antioxidante, desintoxicante, energizante e regulador do
equilíbrio ácido/alcalino, para não dizer tudo.

Merece lugar de honra na farmácia
caseira e é a melhor companheira de
viagens: absolve os pecados da boca
e desinfeta até água contaminada.

Você a encontra na maioria das lojas japonesas
e de produtos naturais, e não é cara.
Mas muito mais interessante é prepará-la em casa.
Fácil, custa menos, você controla pessoalmente o ano
e pouco de maturação e ainda desfruta do caldo que ela
solta, um vinagre salgado muito gostoso que neutraliza
rapidamente problemas de estômago e intestinos
(uma colher de sopa numa xícara de água bem quente,
beber aos golinhos). Seus amigos adorariam ganhar
umeboshi de boa procedência, e ao longo dos anos
você poderia colecionar ameixas de várias safras e origens!

Achou graça? Mas as conservas em salmoura são prova de
que já éramos inteligentes milênios atrás…

Tudo isso, juro, com um mínimo de trabalho. Não se deixe
impressionar pela demora – o tempo é a coisa mais relativa
do mundo. E a paciência, afinal, existe para quê?
Primeiro passo: encomendar ao verdureiro japonês dois
ou mais quilos de umes verdes, que aparecem no mercado
em alguma altura de agosto ou setembro, depois somem.
Conseguiu? Estão firmes e polpudas? Lave delicadamente,
seque bem uma por uma, jogue fora as imperfeitas.
Aí, com um palito de dentes, tire de cada ameixa
a tampinha mínima que fica na base do cabo.

Segundo passo: calcular a quantidade de sal marinho, que
deve corresponder a quinze por cento do peso das ameixas.
Por exemplo: dois quilos de ameixa, 300 gramas de sal.
Terceiro passo: montar uma prensa, arranjando um prato
que sirva de tampa interna para uma vasilha bem funda
de louça, barro, pedra, vidro, pirex, madeira. Nela você
coloca as ameixas e o sal, sem deixar que ultrapassem a
metade da altura da vasilha.

Por cima, o prato, que ao mesmo tempo tampa e pressiona
as ameixas, graças a um peso que seja o dobro do delas
(2 quilos de ameixa, 4 de peso: podem ser pacotes de feijão
e arroz, por exemplo). Cobrindo tudo, uma toalha leve de
algodão para proteger de poeira e intrusos.
O que se passa lá dentro é que o peso força a ameixa
a soltar seu caldo, que dissolve o sal, que por sua vez
impede a presença de bactérias indesejáveis na área.

O balé bioquímico fica ainda melhor um mês depois,
quando o verdureiro japonês apresenta as folhas de shissô,
cheias de aroma e sabor, com sua cor avermelhada e poder
incomparável de conservar alimentos. Também elas são
lavadas, secas, polvilhadas com (pouco) sal, amassadas
nas mãos e misturadas à conserva, que a esta altura pode
sair do peso e passar para um vidrão de boca larga.
É nesse vidro, tampado e bem guardado no escurinho
do armário, que a umeboshi vai esperar 15 meses antes
de nos tornar felizes para sempre. Podemos até fazer
uma nova conserva enquanto a primeira não fica pronta.
Quanto mais antiga, melhor. Depois de três anos pode
ser consumida até por hipertensos.

Cuidado só para não abusar, principalmente se não souber
a idade da umeboshi: em excesso faz mal aos rins
e ofende o estômago.

(Do livro Meditando na cozinha, http://correcotia.com/meditando)

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